Justamente, Julieta

Seen from the inside

Description

Quando era miúda aprendi a fazer tapecarias e ponto cruz na escola e o meu avô construiu-me dois pequenos teares em madeira, um dos quais ainda tenho cá em casa. por volta da mesma altura, tinha aí uns 10 anos, a minha avó ensinou-me a fazer pegas em crochet. no entretanto, tudo isso passou a ‘coisas de velhas’ e só muito recentemente, há cerca de 2 anos, me voltei a interessar por lãs e teares. tarde demais para pedir lições à minha avó que já está muito velhinha, decidi aprender sozinha a fazer crochet e tratei de recolher o máximo de informação possível em todo o lado: tutoriais na internet, livros, revistas e amigas.

neste universo encontrei uma nova sensação de pertença e de identidade: quanto mais pesquiso e aprendo, mais me fascino por estes assuntos.

sempre gostei de ‘velharias’, como diria o meu pai e esta é, de certa forma, uma maneira de me manter ligada a hábitos antigos e aos meus avós também. tinha uma relação muito forte e especial com o meu avô, que religiosamente me oferecia um raminho de espiga todos os anos e me levava a apanhá-la quando andava na escola primária: era aliás, o único dia em que podíamos faltar às aulas, eu e o meu irmão. tenho memórias muito bonitas com os meus avós. em casa tenho muitos objectos que eram deles e que me inspiram diariamente.

a par disto tudo, tenho uma fixação profunda com padrões: bolinhas, quadrados, riscas, azulejos. há poucas coisas que me façam tão feliz como sair Lisboa a fora num dia de Outono.

sou uma miúda feliz [aos 31 anos ainda posso dizer miúda?]. tenho o melhor marido do mundo – que passa um domingo inteirinho a construir-me um tear e me empresta as mãos sempre que preciso de transformar uma meada de lã num novelo – e amigos bestiais, que tanto admiro. a minha família foi essencial para ser quem sou e ter orgulho nisso.

sou a Sara e sou também a Julieta. gosto de lãs, de rádios antigos, de alpacas e de azulejos.

Photography: Bárbara Araújo & Sofia Vaz